Amizade, música e alegria elevam a qualidade de vida dos idosos


Segundo especialista, pessoas que veem na vida mais a alegria, tendem a viver mais e, fundamentalmente, a viver melhor.


São Miguel Paulista é um bairro afastado, na periferia de São Paulo, populoso e bem popular. Um lugar modesto. Mas o que o Globo Repórter foi mostrar no local é luxo que não se encontra assim tão fácil nos quatro cantos do mundo.
Às sextas-feiras o forró "bomba". Animação e romantismo no ar. E pensar que é um baile da terceira idade de um centro de referência para idosos. Mas, toda semana, o salão fica lotado de gente com muitos motivos para comemorar: saúde em dia, antigos sonhos sendo realizados. E o principal: novos amigos ao redor.
O ritmo do envelhecimento está mudando. Aquela frase que era novidade há não muito tempo – a vida começa ao 40 – já está bem ultrapassada. Por que não aos 50? Aos 60? Ou até mais.
Para Tereza dos Santos, a melhor fase da vida é hoje, aos 70 anos: “hoje me sinto realizada. Eu me sinto uma pessoa, me conheço”.
Ela casou muito nova. Passou da submissão ao pai para a do marido. Quando ficou viúva, ela tinha 50 anos e saúde de velha. “Eu era muito doente, tinha problema de coluna, problema do nervo ciático, osteoporose. Sentia muita dor, o joelho era inchado e estalava”, conta.
Demorou até dona Tereza ter coragem para explorar a própria vida. “Ainda fiquei dez anos presa, porque eu não sabia sair de dentro de casa. Eu tinha medo de sair na rua, não fazia questão de ir”, lembra.
Mas foi esse o caminho para ela descobrir a si mesma. “Foi um renascimento. Eu renasci, porque eu não sabia nem falar”, conta. Nem ler. Nem pintar. Nem se enfeitar. A saúde melhorou 100%. Nada mais lógico, do ponto vista médico.
“Um dos fatores que mais ajudam a viver muito é a autoestima, gostar de si mesmo, olhar no espelho de manhã e ficar feliz com a figura que está na frente. O que aconteceu com dona Tereza foi que ela recuperou a sua autoestima”, afirma o geriatra Renato Maia, da Universidade de Brasília (UnB).
Um homem e seu violão. Companhia recente. Joaquim Ferreira de Melo, de 79 anos, está para completar 80 anos. E só aos 75 aprendeu os primeiros acordes. A idade não atrapalhou neste novo desafio. Nem no abandono de um velho vício: “eu deixei de fumar há uns dez anos”, comemora.
Cozinheiro aposentado, ele também controlou a bebida e outros prazeres. “Comi muita farofa de jabá gorda. Se tiver uma feijoada e não tiver jabá gorda, para mim, não é feijoada. Hoje, eu não faço mais porque ela disse que faz mal”, diz.
Esforço de quem ainda que viver muito. “Acho que vou chegar aos 100”, planeja. Mas é do senso de humor, visivelmente cultivado em dupla com a mulher, que seu Joaquim parece tirar a sua juventude. “Mas ele só faz barulho. Vai ao baile e não aguenta dançar. Eu faço barulho, mas arranho também. Ele é cabeça fresca, não esquenta a cabeça com nada”, conta a esposa.
“Pessoas que levam a vida com leveza, que veem na vida mais a alegria, pessoas que têm bom humor tendem a viver mais e, fundamentalmente, a viver melhor”, afirma Renato Maia.
Dona Tereza constrói sua nova personalidade com as mãos. Com a voz, foi estimulada pelo Instituto Paulista de Geriatria e Gerontologia (IPGG), que cuida da saúde física, psicológica e social de idosos de São Miguel Paulista, em uma região pobre, na zona leste de São Paulo. A movimentação vai muito além do clássico dominó. No local, existem oficinas de todo tipo, como pintura e artesanato, além de aulas de alfabetização.
“Realizei um grande sonho: me formei no ensino médio em julho”, comemora Vander Resende, de 63 anos.
Na “contação” de histórias, através da ficção e da imaginação, a realidade de cada vida pode ser recontada – e com um enredo mais feliz.
“Quando eu vim para cá, estava quase entrando em depressão. Eu renasci de novo. Esse grupo é um adubo na minha vida”, ressalta Maria do Patrocínio, de 68 anos.
“Viver muito não é apenas uma questão de controlar o colesterol, ter uma atividade física, uma alimentação adequada. Isso é apenas uma parte. Outra parte depende do modo como a pessoa vê a vida, para que serve a vida, qual é a missão daquela pessoa na vida?”, diz Renato Maia.
Ter um projeto sempre. Esse é o segredo. E não precisa ser nada grandioso. Aprender a tocar um instrumento, por exemplo.

Claro que cada atividade traz benefícios específicos. O violão estimula a coordenação motora, a concentração. As músicas ou as histórias puxam pela memória. Os estudiosos e profissionais que trabalham com idosos sabem disso. Já eles se preocupam, acima de tudo, com a convivência, que alias está provado, faz muito bem à saúde.
“Para frequentar um lugar desses não é preciso muito remédio. Eu estava sempre no médico. Depois que eu entrei aqui, há seis anos, dificilmente vou ao médico”, conta Zélia Andrade Rufino, de 68 anos.
“Sempre gostei muito de cantar. Desde pequeninha eu cantava. Agora que tenho a chance de cantar aqui, me sinto realizada. Sou muito feliz aqui”, garante Aparecida Martinez, de 71 anos.
“É tipo uma terapia ocupacional. Eles chegam aqui com pressão alta, dor de cabeça e depois saem aliviados”, diz o coordenador dos violeiros, Franci Oliveira.
E olha que nem é preciso se arriscar a cantar e desafinar. Uma simples roda de bate-papo pode ser o melhor remédio. Em uma confraria, mulheres não entram. Fórmula usada para um pessoal mais à vontade.
“Conversamos assuntos de homem”, diz Américo Silveiro da Costa, de 78 anos.
“Eu ficaria deslocado no meio de tanta mulher. Elas também fazem o grupinho delas e a gente fica de lado. Aqui nós contamos algumas piadas que não podemos contar no meio das mulheres”, explica Ricardo Augusto Rodrigues, de 66 anos.
E livremente eles vão se fortalecendo.
“Sempre fui tímido, desde jovem. Quando velho, vim para cá e acho que me soltei um pouco”, conta João Arrabal Cortes, de 72 anos.
Assim fica mais fácil seguir em frente e chegar mais longe.
ALBERTO GASPARDo G1, em São Paulo