Ai, que vergonha!


Ai, que vontade de desaparecer! Prendo a respiração, me encolho, meu rosto está queimando… Por favor, não olhem pra mim! Vão notar que estou estranho… Desviei o olhar de novo… Parece que estou meio anestesiado, me deu branco… Vou falar besteira… Ai, meu Deus! Quero sumir!!!

          Isso te lembra de alguma coisa? Pois é, acredito que todos nós, em alguma instância, já experimentamos a vergonha e alguns dos seus sintomas. A vergonha é um sentimento muito comum que aparece quando nos sentimos inadequados ou insuficientes. As reações à ela trazem sempre um conteúdo de avaliação negativa de si mesmo, para o que se é, como se é e para com o que se faz. Assim, as pessoas inclinadas à vergonha acumulam críticas e insultos pessoais contra si mesmas: “eu não tenho direito…”, “nunca serei amado”, “sou mesmo um fraco”, “eu me sinto humilhado”, “sou um incompetente”, “devo ser muito bobo, estúpido mesmo”, “sou todo desajeitado”, “nunca consigo fazer as coisas direito!”, “parece que está todo mundo me olhando, me sinto exposto, nu”. E essas auto acusações são tratadas como verdades absolutas! Não é de se estranhar que surja aquela irresistível vontade de ser invisível…

          Como as raízes do processo de vergonha estão nas nossas experiências infantis mais precoces (em geral numa idade anterior à memória nítida), frequentemente esse sentimento é experienciado de forma rudimentar, nebulosa e confusa. Então, será que eu já senti vergonha e não sei? Muitas vezes não nos damos conta, apenas nos consideramos inadequados, sem valor, achamos que não somos uma fonte de alegria ou simplesmente não estamos “ok” e, assim, queremos evitar a exposição de quem realmente somos aos outros.

          O sentido de vergonha é baseado nas vontades e experiências interpessoais mais precoces da criança e do bebê. E aqui podemos colocar a importância fundamental da família! A família informa à criança quanto às suas expectativas culturais, étnicas, religiosas, sobre como agir, pensar e se comunicar, sobre quais afetos são bem-vindos ali, como deve senti-los e expressa-los (ou não…) etc. Desta forma, as primeiras interações familiares tanto podem dar suporte à construção de um “eu” saudável, que se identifica com aquilo que é, que valoriza o contato e as diferenças entre si mesmo e os outros, ou podem provocar a criança a uma reação negativa em relação a si mesma como um todo. No ambiente próprio, a vergonha vem de forma automática e natural…

          A criança simplesmente não sente como se fosse uma alegria ou uma dádiva para os pais. O sentimento de defeito ou inferioridade, de não ter direitos ou de não merecer amor, respeito e realizações cresce na interação com as pessoas significativas. É nesse contexto que o sentimento de vergonha penetra automaticamente. Quando a família desconsidera as vontades e sentimentos da criança, quando a ridiculariza na frente de outros, quando o pai ou a mãe desviam o olhar com frieza, parecem ofendidos ou reagem com excesso de raiva a um fato sem importância, a criança, confusa, não entende e, naturalmente, conclui que “deve ter algo errado comigo, mas não sei o que é”. Essa mistificação é um elemento fundamental no processo de vergonha.

          Bem, podemos dizer que todas as formas de amor não retribuídas trazem vergonha e que um sentimento de vergonha que perdura anos desenvolve-se num contexto ambiental no qual a criança não adquire um sentido de ser reconhecida, aceita, amada e respeitada pelo que ela é, inclusive por suas “deficiências”. Mas, embora muitos acreditem que a origem da vergonha seja inteiramente ambiental, Yontef (1998) afirma que evidências indicam que pode haver um componente genético, assim como na ansiedade, na insegurança, na compulsividade e no perfeccionismo. Podemos supor, então, que algumas reações de vergonha podem surgir independentemente do tratamento dos pais. Já dá uma sensação de alívio nos pais, não!?

          Ambiental ou genético, você já percebeu que os envergonhados tem um critério rigorosíssimo de competência? É como se houvesse um “eu ideal”, com o qual sempre nos comparamos e nos depreciamos ao comprovarmos que nunca somos como “deveríamos”. Temos a sensação de que nossos erros são intoleráveis e mostram que somos socialmente incompetentes. Assim, há uma cobrança interna de manter o controle – apesar de haver sempre uma vozinha dizendo que em algum ponto vamos falhar porque não somos bons o suficiente.

          É interessante pararmos para olhar que a pessoa vergonha-orientada busca se isolar para evitar contato social, contudo, a reestruturação desta forma de ser acontece no contato pessoa-a-pessoa. É na interação com o outro que podemos ensaiar e descobrir novas formas de ser e, assim, conhecer mais sobre nós mesmos. A verdadeira mudança acontece não quando tentamos ser o que não somos, mas quando nos permitimos ser nós mesmos. Você pode se surpreender com quem você é! A identificação consigo mesmo e com a própria experiência da vergonha é essencial. Quando percebemos nossos limites e nossos potenciais e nos aceitamos exatamente assim, não precisamos mais nos esconder rigidamente atrás do escudo da vergonha – podemos escolher quando ele é necessário, até porque existe a vergonha disfuncional (neurótica) e a vergonha saudável (apropriada).

          Se há alguém da sua convivência que tem vergonha intensa, busque promover uma relação sem julgamentos com ele, seja quem você realmente é nessa interação, o aceite como ele é (inclusive com sua vergonha). Importante: Não tente convencê-lo de não se sentir envergonhado… Isso só estimula sentimentos de vergonha por sentir-se envergonhado. Aja naturalmente! Claro, sem sarcasmos, provocações, desprezo, pena, condescendência e sem humilhar.

          O trabalho terapêutico com a vergonha é um dos que mais me apaixona… Apesar de ser de longo prazo e gradual, pode oferecer resultados surpreendentes! Com a psicoterapia a vergonha intensa pode ser moderada e a auto-estima do paciente aumentada e equilibrada – com o fortalecimento das virtudes pessoais que de fato tem e a construção da autoparentagem positiva.

          Como vimos, a vergonha está diretamente ligada à infância. Volta e meia precisamos resgatar a criança que fomos para podermos resolver alguns sentimentos e situações que ficaram sem fechamento lá atrás e acabam aparecendo meio sem controle hoje… 


Gabriela Maldonado Cavalcante
Psicóloga - Especialista em psicologia clínica
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